Estou há dias sentado aqui na beirada do décimo quinto andar desse prédio.
Não pulo, não desço, não choro, não rio, não como, não bebo, não voo.
Aquela pombinha de olhos azuis já cagou em mim.
E aquela outra nuvem ali, tá vendo? Aquela mais pra esquerda.
Já choveu granizo em mim.
Aquele mesmo sol de quando eu cheguei aqui já me queimou três vezes.
Tem dois urubus ali em cima
No dia que eu cheguei deviam estar uns cem metros mais altos
Voavam em círculo, e agora também.
Aquele mesmo avião
Já deixou aquele rastro ali naquele mesmo lugar do céu quatro vezes.
A moça do décimo sétimo do outro prédio
Já veio ver se eu ainda estava aqui duas vezes
E não manifestou nenhum afeto, nem preocupação, nem alegria
Talvez ela esteja como eu, parada, só que andando.
Eu estou há dias menos dias sentado aqui na beirada do décimo quinto.
Não pulo, não desço, não como, não rio, não voo, não choro, não bebo.
Eu fumava, mas têm duas horas que acabou o cigarro.
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