"E cuidado, quando pensares em morrer
para que nenhuma lápide fique de pé revelando onde jazes
com inscrições claras que te denunciem
e o ano de tua morte que te entregue!
Ainda uma vez:
Apaga os rastros!" - Bertold Brecht
(...)
Como fugir do desejo burguês de deixar marcas, de deixar rastros? Como entender que na vida nunca somos um, mas uns?
Somos um bando de nós mesmos, cheios de outras vidas dentro de nós.
Dentro dessas vitalidades, há a necessidade de sobreviver, e sobrevivemos... Seguimos pisando e matando o que fomos há 1 segundo atrás, ou o que andamos sendo há 16 anos.
(...)
Vejo seus passos bem menos do que você vê os meus.
Ouço muitas prontas verdades, não as digo, não as tenho.
Meus rastros e passos na areia são claros e quase indissolúveis.
Os seus? Não vejo. Sei bem que passou por aqui, mas não sei de onde veio, pra onde foi. Tenho suposições da sua trilha, mas não mais posso dizer se foi um sonho ou se é uma lembrança.
(...)
Talvez a verdade esteja ligada ao sumiço, talvez a dúvida esteja aos abraços com a presença.
(...)
Apagar os rastros é a maneira mais fácil, sutil e talvez sensata de viver a verdade... Resistir é a maneira mais agressiva, tortuosa e insana de não querer a verdade, mas sim o sentir. Resistir é deixar pra traz o traço do seu aprendizado. É não negar quantos vocês você matou pra chegar aqui.
(...)
Ela procura o sólido, mas some como o ar, tenta ser estática, mas se move feito água.
(...)
Que seja assim o adeus.
Despeço-me da palavra que se foi e levou com ela a dor e a chama.
Que nós questionemos até o mar. Que o oceano seja dúvida.
Que o aprendizado traga mais perguntas.
Que a água traga nos peixes do rio a paz e o questionamento.
E essa verdade que procuram?
Eu dispenso.