quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Zac & Tim - Na Rua

Pegou a câmera antiga, viu alguns negativos antigos, colocou contra luz e viu pequenos vultos do passado. Pensou em revelá-los, mas não tinha mais os produtos e seu laboratório já não era o mesmo, deu preguiça.
Colocou os negativos no bolso e resolveu se aventurar pelas ruas do centro. Tinha muitas pessoas na calçada e ao mesmo tempo parecia não ter ninguém, todos aqueles movimentos automáticos, alguns pares de garotas andando juntas, algumas até bonitas, mas nenhuma lhe despertava verdadeiro interesse. Mulheres gordas com sacolas enormes digladiavam um espaço nas lojas em liquidação. Caminhões carregados de frutas e verduras e homens com grandes sacas aos ombors atrapalhavam o fluxo da calçada. Um senhor com lepra pedia moedas sentado ali mesmo no chão. Uma mulher amamentava sentada num banco da praçinha ali do outro lado da rua. Os cachorros dividiam espaço com tudo isso. Se sentiu em perigo e ao mesmo tempo sadicamente feliz por se achar diferente. Olhou para o lado e leu em um cartaz "Revela-se fotos, digitais e negativos." levou a mão ao bolso, pegou os negativos, escolheu um, pegou o dinheiro e contou, tinha alguns trocados além da quantia para a revelação, pensou em um sorvete e foi o que resolveu fazer.
_ Fica pronto em uma hora - disse a atendente.
Agradeceu, comprou uma casquinha de baunilha e sentou-se na pracinha.
Observou por algum momento os mesmos movimentos incondicionais, ouviu o barulho do trem, deu vontade de viajar, olhou para cima a fim de ver o céu, viu um ipê bem no meio e entrelaçado à duas palmeiras imperiais e ficou ali por um tempo.
Voltou a loja de fotografia e pegou as fotos, as antigas novas fotos, meio amareladas meio esverdeadas, pensou no passado que estava imortalizado ali, as almas ali presas, viu Zac e uma menina, viu outras coisas, só não viu pessoas com movimentos automáticos.
Não viu, mas lembrou que esse dia um velhinho jogava água na frente da casa com uma mangueira de borracha na tentativa de tirar as folhas do outono e dar alguma cor viva para as roseiras.
Voltou-se ao seu mundo e percebeu que o velhinho agora aguara sua vida, viu frutas e verduras tão coloridas nas sacas, viu mulheres gordas felizes, viu pares de garotas lindas, viu um ipê duas palmeiras e um céu.
_ Queria voltar ao passado e agora parece que por um momento vejo tudo meio amarelado meio esverdeado, lindo.
Tim voltou pra casa, pegou os outros negativos no bolso e guardou-os pra se entorpecer outro dia.

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