sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Embora

Acho que não sou de falar
Vezes as pétalas das palavras me traem as mãos
Suavemente desviam com o vento no meio dos dedos
As perco, não tocam, não são
E esse devaneio me tira o chão
Me sinto mesmo as próprias pétalas sem destino

Acontece que eu falo muito
E a chuva de pétalas vezes deixam de se fazer notar
Tornam-se mero exercício de falar
E nada sou se não chove
Tenho que ser chuva torpe, sem medo

Eu não gosto do que sinto
O gosto do cheiro que impregna meu corpo
Inscrito e privilegiado que fede o sofrer de quem não
Mas sou, e existo, insisto que não devo ser, mas sou
E nesse corpo é que tenho que mudar

E eu gosto tanto do que sinto
Essa unha felina que rasga meu peito
Deixa a mostra o que eu mais receio e o que mais anseio
Derruba tijolo por tijolo a fortaleza que me rodeia
Eu sou do que sobra o que você semeia

E derrubar também te derruba
Te açoita interna os meus tijolos, que não são culpa sua
E fura agora o peito mirar esses olhos falantes
Que pra cada dez lágrimas que segura
Chora uma

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Ilusão

Entrei bêbado no banheiro do bar e o banheiro estreito se limitava a um mictório de alumínio com vaga para dois e uma privada isolada sem porta com uma mureta que os dividia. A mureta de aproximadamente um metro e oitenta ostentava uma coroa de pedras na parte superior que impedia quem quisesse de descansar os copos ali, o que acabava te forçando a urinar com o copo na mão. Escolhi a privada por nunca conseguir mijar em mictório, nunca consegui explicar, nem tento, só não consigo. O vaso estava até o topo de água, urina e restos de cigarro e papel higiênico, logo acima um aviso de papel velho e tão ensopado quanto o chão daquele lugar pedia encarecidamente para não jogar papel no vaso. Como não consigo mijar em mictório o jeito foi mijar ali na na fonte de dejetos. Fechei o olho pra concentrar e logo depois sai do banheiro e fui surpreendido por um soco que me jogou no chão e me derrubou o copo que tive trabalho de manter na outra mão enquanto urinava. A vertigem e a raiva não me impediram de olhar o olho do agressor que satisfeito deferiu outro soco dessa vez mais perto do olho e na atual situação talvez a gargalhada fosse mais convincente que a cara de ódio que eu fazia, porém não reagi, não tive vontade, força, ânimo, medo, por incrível que pareça me parecia um boa opção o chão e os socos. As outras pessoas que o tiraram de cima de mim até que os seguranças retiraram do local aquele bárbaro de pele pálida. O mijo acabou e eu fechei o zíper irritado de estar pisando naquele chão repleto de mijo de toda uma noite. Saí do banheiro e incrivelmente nada me surpreendeu, nem um soco, nem um bárbaro, nem a raiva, igual a ilusão só a falta de vontade, de força, ânimo e o medo que movem as coisas.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Passará

Você só passou, como sempre passara por ali, só, porquê sim. Não buscou nada específico, ou esperou por um acontecimento, ou desejou o improvável. Talvez foi isso que me chamou a atenção. Eu sei, fui insistente. Eu quis, quis muito fazer parte daquele silêncio, ou foi meu mundo barulhento que quis chegar com rimas, com música. Penso de modo egoísta, foi bom, me fez ver que aí também há som, há pedidos, há sonhos.

Você passou devagar, pintando. Talvez você não note, mas você pinta. Quando anda, pinta o tempo, que parece deixar de correr. Quando sorri, pinta sonhos, vontades de te imortalizar ali. Quando fala, pinta brincadeiras e abraços quentes, pinta dias azuis também, escalas de chumbo ou grafite, sombras. Quando escreve você pinta luz, passados amarelo claro, grandes luas que saem da moldura pra dizer.

Você passa tão rápido que deixa vontades, de ouvir sua voz cantar seus versos contínuos em sol maior e só. De dormir com você seu sono silencioso e rosto sereno de quem prefere os sonhos. De tomar café com chocolate com os gatos do lado de fora só porquê não podiam ouvir a conversa. Da poesia que há de fazer novas visitas.

Você não passa todos os dias. Você não é rotina e acho que não seria, pois você não é mergulho você é o rio, é em si o que mais teme e o que mais ama. É sereia ou borboleta por ser transformação. É coruja e elefante por ser conhecimento, carinho e saudade. Você é o tempo e é o seu. Seu tempo é carinho e cuidado nos laços de quem mais amo. Você é a metáfora que eu não pude fazer.

Você passa de verdade. Você é a sua verdade.
Ou essa que eu inventei pra te ver passar.

terça-feira, 16 de maio de 2017

Há tanta coisa a escrever e tudo me parece importante
Essa semana, depois de anos, escrevi à Mão
E ela não respondeu

O aprender e o sentir

Tem coisas que a vida não muda, tem coisas que a gente não quer mudar.
Como hoje sentados lado a lado sem que eu pudesse te enxergar, algumas poucas conversas e sentimentos que não sei decifrar.
A pressa é inimiga da compreensão e devagar é que se entende a vida. Algumas pessoas sofrem rompimentos, tragédias, traumas que as levam a entender a vida de forma brusca, mais rápida. Outras entendem através do aprendizado dos outros por muito observar. Algumas outras aprendem mesmo devagar e outras por mais que entendam a vida completamente diferente, também aprendem. Afinal, a vida é um aprendizado e por mais que haja suas diferenças é sempre devagar. Estranho pensar que a dor de viver é igual dor de machucado que passa aos poucos e, aos poucos, a gente vai entendendo que com cuidado, nosso ou externo, a gente se cura, a dor passa e abre espaço pra mais aprendizado. Acho que no atual momento começo a compreender o tempo e esse tempo que a vida leva, entendo que é preciso ser paciente e ser cuidadoso com toda pessoas que no atravessa ou pela qual nos atravessamos. Acho que devemos mesmo ser pacientes e ao mesmo tempo que devemos ter paciência devemos nos deixar curar, ser sempre paciente.
Não quero mudar o rumo desse texto e vou deixar assim.
Tem coisas que a vida não muda, tem coisas que a gente quer mudar.
Dentre isso tudo desejo que seja livre sentir e que o sentir torne livre o falar, sempre o que o seu falar não afetar de maneira hostil o outro.
Desejo que o ouvir seja mais atento e que todos sejam abertos ao sentir sem culpa, sem medo.
Que a dor se cure e que as cicatrizes sejam sensíveis ao amor e ao cuidado.
Que o sentir não seja brincadeira.
Digo mais,
Se isso tudo for brincadeira, é porquê brincamos demais.




"Quinta carta da série de cartas de Oicani para os homens" 

terça-feira, 28 de março de 2017

Totalidade

Vazio é tema! pra tudo
Temo mesmo ficar assim pra sempre
Já que nunca soube o que é não ficar.
Ando cheio de ser temeroso.
O que me sobra é o infinito
E nada de novo

sábado, 11 de março de 2017

Casa

Sonhei que a gente se casava
Logo após o dia da volta
Era eu que me mudava
E o apartamento agora apertado
Dava lugar ao sonhar de uma casa
- Que tenha dois quartos então. Um pra nós e outro pros gatos.

Perfume do invisível

O perfume do invisível visitou meus ouvidos
E com ele vi você materializar-se
Será que vivo um sonho?
Ou ressuscito o imortal dentro de mim?

quinta-feira, 9 de março de 2017

Não sei

Esta saída deixou um buraco
E sangra, sangue que cai aos poucos
Aos prantos, lento que faz estrago
- Não tem pomada que cure não doutor
Esta saída que levou consigo o abraço
Os laços e (alguns) nós
No caminho anda fazendo outros, eu sei
Parece que você estava sempre ali
Pronta pra cuidar do nosso engodo
E eu, eu não sabia
Eu na verdade nunca soube
Por que?
Simplesmente, ainda não sei

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Solidão é doença sem cura
Nem mesmo um monge atura
E não há desenvolvimento, lisura
Que invente um curar
Afinal estar só é estar só consigo
Encontrar em si um amigo
Um abrigo
Pra esperar a tempestade passar
Mas essa companhia é complicada
Malemal a gente se entende
O que um matuta o outro sente
O que um fala o outro desmente
E inevitavelmente é assim que vai acabar
Só consigo sozinho
                                 
                                  [nas asas da solidão

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Labirintite

Doença do caminhar
Que te impede a permanência de pé
Ou que sinaliza uma incapacidade de seguir
Da ordem da emoção
Não te permite mais carregar nada
Nem olhar para o lado de maneira eufórica
Causa vômito contínuo
Inibindo assim a barriga de empurrar qualquer coisa
Sendo a única posição confortável ficar deitado no escuro
Se encerra como sendo uma explicação perfeita da minha vida 
                                                                                [sem labirintite.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Invisível

Quem será o passarinho que me acorda desse sono longo?
Nem lembro quando hibernei
Nem sei se pretendia acordar
Só sei que acordei com cheiro de poesia no fogão
E é poesia temperada com poesia
Dizem que faz bem pro coração.